terça-feira, 2 de setembro de 2008

O pescador de ilusoes


"De Deus, tudo aquilo que nao se pode ver."

(Los Hermas)


Ressoa de uma flauta o acorde a brincar com meus cabelos. A leveza audivel de que necessito para ser forte. Momentos alargados de rara expansao e preguica, em que o centro me suspende a morada das estrelas. Olhar no vazio. Enlevo de percorrer a superficie do mundo sem pertencer a ele. Planeta oval de dimensoes contidas em outras dimensoes, maravilhas infindas, desconhecidas. Hoje, eu sei da arte de entender os ciclos das horas nuas, em que se morre sem morrer. Minhas maos nao me deixam mentir a experiencia de tantas vezes tecer as tramas do novelo de meus proprios ciclos. Fios emaranhados, embrenhados aos nos cosmicos de outros inicios e outros fins. Transito periodico de questoes. Onde eh que vai dar? A vida nao tracada de minha tranca, nao sei, mas ao vento danca. Caricia sem o esboco das direcoes mundanas, meu cabelo brinca e esvoaca sem o norte de qualquer pensamento. Olhos lancados ao horizonte onde eh permitida a singela ignorancia libertar-se: nao sera o redondo deste fim, o limite de tudo? Se alem eu fosse, talvez nao me afogasse, de nenhum penhasco eu caisse. Talvez, para alem do mundo de meus olhos e do tato humano de sensibilidade tao singularmente limitada, eu por fim voasse. Como musica ou crianca, voltar a ser um, eu seria.

terça-feira, 24 de junho de 2008

A rua


Tambem eu

sou feita de rua

Equivalencia

consubstancial

do barro, da lama

por vezes poeira

Sou eu

dissipada

na ventania

que me leva


Valetas de resistencias

Avisto pontes aereas

e mil lacunas

em minha historia

Por onde perambulam

pedestres e moradores

da memoria


Chao batido de mim

Pisam-me 'a superficie

os tolos

Ajudando-me a sedimentar

tesouros subterraneos


Imperfeicoes e desniveis

em que resvalo,

mas nao caio,

num acerto

escorregadio

de meu passo


Lencol de emocoes

das chuvas escoadas

'as profundas camadas

de tantas alegrias

e tantas magoas


Eh a rua surrada

de que sou feita

por onde me vou

e sou carregada

Num passeio de descompassos,

a estrada efemera

e a escavacao eterna.

Mente na Lua vivente


Disfarce conveniente seu. Descorre o vendedor ambulante sobre o eterno retorno dos ciclos de criacao e destruicao dos mundos. O rei Indra e eu o acompanhamos atentos. Despertamos juntos de nossa ignorancia e vaidade. O longo periodo de dessacralizacao do real sentido da vida se rompe. Sei do bombardeio sonoro e o ouco na buzina de tantos veiculos. Sei da difamacao da sensibilidade humana em diversos graus de deturpacao da realidade. Estranhamento do espelho translucido a refletir a identidade original nossa. A introjecao dos sistemas sociais em minha corrente sanguinea. Seus modelos de comportamento, seus codigos moralizantes, suas hipocrisias. A artilharia pesada dos meios de massificacao das ideias que ao me abaterem sobremaneira, surpreendentemente, revigoram o impeto de desferir a flecha-chave de minha libertacao. Quedo consciente e voluntariamente ao poco obscuro de meu arcabouco mitico a fim de traze-lo 'a luz . Voz da mae geradora de toda a criacao, prostro-me ao ouvir o seu sussurro penetrante sob a forma de silencio que tudo petrifica para tudo remodelar. Unidos pela morte de tantas vidas, pela acao da estarrecedora intuicao cosmica, reacende em mim a revelacao da imortalidade. Assim, vejo lado a lado projetados em minha mente os milhares de fragmentos de minha condicao existencial. A obediencia historica, que sorrateiramente rouba e extirpa a genuina dimensao da vida, eh finalmente subtraida 'a retencao do ar em meus pulmoes. Nome, identidade, personalidade e a mascara da geografia corporal com todos os seus artificios sao estilhacados diante do espelho de meu ser integral. O reverso da fantasia que so a imaginacao reaviva. O avesso da loucura que faz temer um homem sao. O contraponto desafiador do chamado para uma definitiva reconciliacao com o ser unico sobrevivente. Nada mais posso ser. Desgarrada das amarras do tempo, escorro para alem do circulo atmosferico onde e somente onde me reencontro dentro do mundo. Olhos precipitados da ignorancia desvairada de nossos tempos, julgam-me alucinada. Mente na lua vivente. Convite para que me cale, ainda que eu nao possa parar. Motricidade cosmologica minha, cuja carne nao passa da maquiagem palida de meus ossos.