quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Delhi - February 3rd 2009


Fez o que podia. Seria muito que tivesse de volta o direito de seguir a vida? Em outras mãos, o seu destino. Mas ainda assim ela sabia onde encontrar a paz. Pediam-lhe repetitivamente que esperasse. Dias e dias à sombra de uma luz que não despontava nunca. No entanto, de alguma forma misteriosa em meio ao breu de sua jaula ela sabia o que fazer. Só não podia esperar mais. Era preciso que corresse ao alcance do chamado sussurrado dentro de si. E isso ela podia fazer em qualquer lugar menos numa jaula. A condição de obrigação a viver presa numa doença que não lhe pertencia a impedia de encontrar-se. Como então conceber que doença assim alheia pudesse se manifestar nela? Era uma permissão tão íntima que ela concedia ao seu próprio estado de sofrimento que quase não lhe cabia investigar essa dor. Mesmo com isso tudo de esconder-se da verdade que se busca revelar, não era possível que se pacientasse. Além de suas forças, rebelar-se contra o quê?! Se a culpa era do inculpável. Enveredava assim sentimentos de impotência diante do peso de se sentir responsável por sua própria vida. Virei um labirinto infinito, disse virando-se. Tolhida em suas ações e movimentos, a eternidade como promessa de liberação completa ressoava a brisa do tempo perdido. Os relances de pensamentos claros, verdejantes como vales vivos, eram meros toques da sutil natureza poupando que ela morresse definitivamente agora. Pedem-lhe que saiba esperar para que possa fazê-lo quando preciso. A vida como adiamento da morte era incogitável. Igualmente, o adiamento da missão revelada naquele momento luminoso se tornava insuportável. A qualquer tempo ou espaço não se pode ignorar a pulsão do peito a clamar consciência. Quando o coração só se faz ouvir perto, muito perto do desespero e toda a sorte de selvageria das inquietações borbulham a tirar-lhe o centro. A austera sensação de negligência de si mesmo alastrando-se sutil como o calor do sol da manhã. Ela só queria a luz que iluminasse a incompreensão de todo e qualquer ato impensado, in-calculado. Ela não podia mais conter o seu dever de continuar a vida, essa era a questão. Como permitir que lhe tolhessem sem justificativa a liberdade sofrida? Chegava ao limiar de abandonar-se à correnteza de uma nova força... Chegava ao limiar do pensamento de que não precisava mais sofrer... quando algo inesperado acontecia. Era arrebatada de novo à sorte da impermanência das escolhas, da falta de vontade, do medo, da insegurança ou simplesmente de algo qualquer de sabotar o outro naquilo que o faz alguém melhor. Talvez auto-sabotagem. Talvez e provavelmente o que quer que ela trouxesse consigo e despertasse o profundo desejo do outro. Estava na jaula declarado. Oficialmente evidenciada a maldosa infração humana. A desumana droga introjetada de calar e nublar o ser em si do outro. Incontido. Uma vez que ela tivesse sido necessária, estaria descartada. Esquecê-la, então, e comemorar a vitória do um em meio ao todo. Estava só agora. Final e tristemente. Não se permitiria celebrar nada enquanto não fosse livre. E era preciso esperar. Os que lhe nutriam alguma paciência já se tinham ido. Era preciso que lhe habitassem além da memória, então, e só assim... Ela seguiria a vida.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Into the Science of the Primal-Sound

" Always starting from clear premises with precisely limited notions illustrated by examples, they always lead to the essential, to what Plato, Pythagoras, or the Indian theorists never lost sight of : the fact that music is closely linked to metaphysics. At all stages it reflects and expresses the very processes of revelation, the origin and ultimate reality of which, for traditional thinkers as for the most advanced researchers in astrophysics or quantum mechanics, is vibration."

Jean-Louis Garban

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O pescador de ilusoes


"De Deus, tudo aquilo que nao se pode ver."

(Los Hermas)


Ressoa de uma flauta o acorde a brincar com meus cabelos. A leveza audivel de que necessito para ser forte. Momentos alargados de rara expansao e preguica, em que o centro me suspende a morada das estrelas. Olhar no vazio. Enlevo de percorrer a superficie do mundo sem pertencer a ele. Planeta oval de dimensoes contidas em outras dimensoes, maravilhas infindas, desconhecidas. Hoje, eu sei da arte de entender os ciclos das horas nuas, em que se morre sem morrer. Minhas maos nao me deixam mentir a experiencia de tantas vezes tecer as tramas do novelo de meus proprios ciclos. Fios emaranhados, embrenhados aos nos cosmicos de outros inicios e outros fins. Transito periodico de questoes. Onde eh que vai dar? A vida nao tracada de minha tranca, nao sei, mas ao vento danca. Caricia sem o esboco das direcoes mundanas, meu cabelo brinca e esvoaca sem o norte de qualquer pensamento. Olhos lancados ao horizonte onde eh permitida a singela ignorancia libertar-se: nao sera o redondo deste fim, o limite de tudo? Se alem eu fosse, talvez nao me afogasse, de nenhum penhasco eu caisse. Talvez, para alem do mundo de meus olhos e do tato humano de sensibilidade tao singularmente limitada, eu por fim voasse. Como musica ou crianca, voltar a ser um, eu seria.

terça-feira, 24 de junho de 2008

A rua


Tambem eu

sou feita de rua

Equivalencia

consubstancial

do barro, da lama

por vezes poeira

Sou eu

dissipada

na ventania

que me leva


Valetas de resistencias

Avisto pontes aereas

e mil lacunas

em minha historia

Por onde perambulam

pedestres e moradores

da memoria


Chao batido de mim

Pisam-me 'a superficie

os tolos

Ajudando-me a sedimentar

tesouros subterraneos


Imperfeicoes e desniveis

em que resvalo,

mas nao caio,

num acerto

escorregadio

de meu passo


Lencol de emocoes

das chuvas escoadas

'as profundas camadas

de tantas alegrias

e tantas magoas


Eh a rua surrada

de que sou feita

por onde me vou

e sou carregada

Num passeio de descompassos,

a estrada efemera

e a escavacao eterna.

Mente na Lua vivente


Disfarce conveniente seu. Descorre o vendedor ambulante sobre o eterno retorno dos ciclos de criacao e destruicao dos mundos. O rei Indra e eu o acompanhamos atentos. Despertamos juntos de nossa ignorancia e vaidade. O longo periodo de dessacralizacao do real sentido da vida se rompe. Sei do bombardeio sonoro e o ouco na buzina de tantos veiculos. Sei da difamacao da sensibilidade humana em diversos graus de deturpacao da realidade. Estranhamento do espelho translucido a refletir a identidade original nossa. A introjecao dos sistemas sociais em minha corrente sanguinea. Seus modelos de comportamento, seus codigos moralizantes, suas hipocrisias. A artilharia pesada dos meios de massificacao das ideias que ao me abaterem sobremaneira, surpreendentemente, revigoram o impeto de desferir a flecha-chave de minha libertacao. Quedo consciente e voluntariamente ao poco obscuro de meu arcabouco mitico a fim de traze-lo 'a luz . Voz da mae geradora de toda a criacao, prostro-me ao ouvir o seu sussurro penetrante sob a forma de silencio que tudo petrifica para tudo remodelar. Unidos pela morte de tantas vidas, pela acao da estarrecedora intuicao cosmica, reacende em mim a revelacao da imortalidade. Assim, vejo lado a lado projetados em minha mente os milhares de fragmentos de minha condicao existencial. A obediencia historica, que sorrateiramente rouba e extirpa a genuina dimensao da vida, eh finalmente subtraida 'a retencao do ar em meus pulmoes. Nome, identidade, personalidade e a mascara da geografia corporal com todos os seus artificios sao estilhacados diante do espelho de meu ser integral. O reverso da fantasia que so a imaginacao reaviva. O avesso da loucura que faz temer um homem sao. O contraponto desafiador do chamado para uma definitiva reconciliacao com o ser unico sobrevivente. Nada mais posso ser. Desgarrada das amarras do tempo, escorro para alem do circulo atmosferico onde e somente onde me reencontro dentro do mundo. Olhos precipitados da ignorancia desvairada de nossos tempos, julgam-me alucinada. Mente na lua vivente. Convite para que me cale, ainda que eu nao possa parar. Motricidade cosmologica minha, cuja carne nao passa da maquiagem palida de meus ossos.

O que precede o Sol


Armada de fe
ate o po dos ossos
renuncio a majestade
dos reinados
e abraco os destrocos



Ergue-se em anunciacao
dos ciclos cosmicos,
a poeira glorificada
dos deuses decaidos


Restos mortais
de tantos Indras imortais
Rebaixados 'a licao eterna
das acoes periodicas
do Universo


Compaixao pelo pobre,
compadeco-me eu
sem padecer
de minha propria miseria


Humana existencia
que o negro tempo
nao alcanca

Idade transcendental
Independente

Envaidece-me, assim,
o orgulho de saber ser...
ninguem


E renascida da lama,
qual o lotus que vinga,
sigo fortalecida
em meio ao caos.
31/05/2008 - Varanasi

domingo, 22 de junho de 2008


"O pensamento simbolico nao eh uma area exclusiva da crianca, do poeta ou do desequilibrado: ela eh consubstancial ao ser humano, precede a linguagem e a razao discursiva"
(Mircea Eliade, Imagens e Simbolos, p.8)

Em delirio febril, o corpo sonolento esparramado na cama, avistei refletido em sonho o estado claustrofobico de minha condicao enferma. Realidade em sonho a exprimir a pulsao mais significativa de sentidos submersos. Prisao voluntaria onde confinei as minhas energias e expectativas a fim de trabalha-las em silencio. Longe do mundo, no fim de tudo que me eh conhecido. Esvoaco desfeita no po do anonimato ao quebranto da passada do vento a soprar-me os pes. Nao eh de pasmar-se que o barro se rompa e se perca 'a acao seca do tempo. Ainda assim, eh viva demais a memoria umida do ventre materno a modelar-me criatura da terra. Hoje, nao ha chuva que me escorra, lagrima que me lave. Enrijeci os anos de minha formacao sob a forma de mulher e o coracao mantive cativo no berco oceanico de toda a criacao humana. Embora o po da jornada me venha enrugar as raizes do rosto, nao me abate a pedra impenetravel do peito. Ainda que eu precise repousar, ele pulsa. Ainda que nao se faca cancao de minhas maos, ressoa a melodia da alma. Eu, presa no cubiculo de mim mesma, com meus pensamentos ordinarios e mediocres so encontro saida na janela dos olhos de onde avisto uma arvore soberana, superior. A mae de todas as maes, o centro de todos os circulos, a fortaleza primordial de todas as forcas e a beleza do proprio Belo. Mito sonhado meu, vem atraves de uma visao onirica restituir-me a sanidade de estar salva e segura sob minha propria pele. Camada fragil de que faco o casulo de mim e, ao mesmo tempo, 'a rebelia desse sistema invencivel de protecao, resta uma janela. A abertura unica por onde o mundo me invade. O trincar da barragem que nao da conta de conter a tormenta do mar. Eu apenas olho e observo aterrorizada o poder da grande mae. Arvore novamente. Nao vejo sua copa ou suas raizes, mas o olho de seu caule robusto e espesso. O seu olho me diz do sofrimento da humanidade e eu covarde no cubiculo de minha pele tenho o impeto de fugir. Tolice de um sonho penetrante do qual se quer despertar e, simultaneamente, permanecer hipnotizado. A dor dela era a minha dor. Amargura compartilhada nossa. Compaixao que eh o senso de ancestralidade de sem mais nem menos tornar-se um. De minhas veias, as raizes; de meu sangue, a seiva; dos pensamentos, as folhas; dos sentidos, os frutos; dos sonhos, uma guirlanda de flores. Tormento vivido, o chacoalhar daquela arvore sagrada num prenuncio de morte. Como podia? Justo ela, ser abatida por qualquer que fosse a adversidade do tempo ou a crueldade humana. Aos meus olhos, invencivel, era inquestionavel que fosse eterna. No entanto, o som dissipado de suas fibras rolicas se rompendo confirmou a queda tragica da mae terra. Ao de cair de seu corpo-monstro, afugentei-me encolhida temendo que ela me abatesse dentro do cubiculo onde me restava sobreviver. Um ultimo gesto de sua magnitude, ela ensinou-me a grandeza da confianca. Eh certo que tombara dos pes 'a cabeca e que me poderia ter esmagado, mas restamos intactos, eu e o meu casulo. Morta, rente ao chao de onde sua trajetoria de vida recomecaria mais uma vez.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

O que eh o Graal?


Trata-se de um detalhe da lenda de Percival e do Rei Pescador. Lembramos a misteriosa doenca que paralisou o velho rei, detentor do segredo do Graal. Alias, ele nao era o unico que sofria; tudo em torno de si desabava, desmoronava: o palacio, as torres, os jardins, os animais nao mais se reproduziam, as arvores nao davam mais frutos, as fontes secavam. Inumeros medicos tinham tentado tratar o Rei Pescador _ sem o menor resultado. Dia e noite chegavam os cavaleiros, e todos comecavam por perguntar as novidades sobre a saude do Rei. Um unico cavaleiro _ pobre e desconhecido, ate um pouco ridiculo _ permitiu-se ignorar o cerimonial e a cortesia. Seu nome era Percival. Sem levar em conta o cerimonial da corte, ele se dirige diretamente ao Rei e, aproximando-se dele, sem nenhum preambulo, pergunta-lhe: "Onde esta o Graal?" No mesmo momento, tudo se transforma: o Rei levanta-se do seu leito de sofrimento, os rios e as fontes recomecam a jorrar, a vegetacao renasce, o castelo se restaura milagrosamente. As poucas palavras de Percival tinham sido suficientes para regenerar toda a Natureza. Mas estas poucas palavras constituiam a questao central, o unico problema que podia interessar nao so ao Rei Pescador, mas tambem ao Cosmos inteiro: onde se achava o real por excelencia, o sagrado, o Centro da vida e a fonte da imortalidade? Onde se encontrava o Santo Graal? Ninguem havia pensado, antes de Percival, em formular esta pergunta central _ e o mundo morria por causa dessa indiferenca metafisica e religiosa, por causa dessa falta de imaginacao e ausencia de desejo do real.


(Mircea Eliade, em Imagens e Simbolos, 1952)

PS: Sinceras desculpas pela ausencia de acentuacao!

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Destruction as a cause of coming into being



"Whoever wants to be creative in good and evil

must first be an anihilator

and destroy values."

(Nietzsche)



What looks like destruction may be creation:

Something must die

for something else to be born.

This consists of a kind of rebirth

from a kind of death.

Being a drive towards fusion,

both destruction and self-anihilation

are integral to sexuality,

while repression is partly a matter of self-defence.


(adapted from Sabina Spielrein's essay)

Jungian days


"No good man is without a God...

We do not, in fact, presume to specify which God,

but it is certain that a God dwells within the breast of every good man."


"To honour God, the sun or the fire

is to honour one's own vital force,

the libido."


"At the zenith of the inner world

is a star which is our guiding God.

This star or sun or God

should be the goal of our pilgrimages.

Our relationship with God takes place

within the individual soul."

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Dreams


Your dreams are at the door...


Remember:


Life is short

Break the rules

Forgive quickly

Kiss slowly

Love truly

Laugh uncontrollably


and never regret anything!


eternal friend, Josh

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Ex-act-à-mente


" O que me tranquiliza

é que tudo o que existe,

existe com uma precisão absoluta.

O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete

não transborda nenhuma fração de milímetro

além do tamanho de uma cabeça de alfinete.

Tudo o que existe é de uma grande exatidão.

Pena é que a maior parte do que existe

com essa exatidão

nos é tecnicamente invisível.

O bom é que a verdade chega a nós

como um sentido secreto das coisas.

Nós terminamos adivinhando, confusos,

a perfeição."


Clarice Lispector

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

O homem de bem


Criterioso que é, o homem de bem escolhe cuidadosamente o dardo agudo que irá desferir o alvo. A complexa rede de leituras livres lhe provê uma teia de significados possíveis, oras a capturar a presa, oras a emaranhá-lo na própria tecitura de seus fios. Textura áspera de um tecido de palavras ríspidas disfarçadas à delicadeza e polidez de seus gestos habituais. Veste-se com o texto lírico, meticulosamente poético-artístico, e camufla-se como quem se defende ou ataca. Segue com o olhar covarde de quem rasteja trincheiras de significados ameaçadores à paz de sua guerra consigo mesmo. Segue até onde não pode ver-se refletido desnudado da verbal camuflagem. Translúcido, despido. Utiliza-se o homem de bem de seu fiel instrumento de guerrilha, o estilete da língua, para com total destreza modelar à conveniência de suas intenções de vitória o sentido tal e qual das coisas do mundo. Espelho de sua real ignorância, não vê ele a reflexão perplexa e difusa contida na multiplicidade de ângulos que evadem à sua limitada percepção. Contraditoriamente, excita-o a atividade de pensamento que lhe condena ao sistema prostrado de declarar batalhas sem fim contra si mesmo. Vício intransigente seu o de cumprir a obrigação das conveniências. Ilusão de conforto, mais cedo ou mais tarde, a revolução das águas vem lhe estourar o casulo onde se resguardara. Afinal, a quê bel-prazer ele escraviza a expressão do que sente e compreende à restrita exploração de sentenças prontas? Sem gozo de vida, mesmo que fale belo, é beleza roubada do floreio alheio. Segue ele, assim, entrincheirado por entre corredores sem saída de subterfúgios educados a lhe sabotarem a sinceridade do reconhecimento de si mesmo. Falsa modéstia como alimento de seu ego, logo, os labirintos das trincheiras se erguem num castelo imponente de pretensa humildade. Reconhecer-se torna-se a grande muralha que mais lhe delata a fraqueza de não saber ser grande do que a fortaleza de pequeno. Cumprimentos tantos, os de seus modos requintados de ciência e sofisticada desenvoltura nos tratos, que vêm tornar seu castelo mais impenetrável ainda à ação de descobrir-se. Sedução de narciso, esse homem além de bem é belo. Um forte a mais a bloquear a consciência do pobre! Refugiado em seu próprio universo de significação, ele decodifica o mundo. O homem de bem funda um verdadeiro reino de opiniões e argumentos cheios de certeza e verdade. Detentor sagaz da habilidade de postar-se em um centro louvável de conhecimento de si mesmo e do mundo, ele se torna senhor da subjetiva arte de conferir sentidos e valores a tudo o que lhe rodeia. Não demora muito e o homem de bem vira rei. Indecentemente condescendente às dimensões de verdade que ele mesmo carrega como coroa a lhe pesar sobre a testa. O peso, o volume, a densidade, o comprimento, a altura, a forma, a profundidade, a cor, a temperatura; a hora lírica, a demora dramática, a letargia lúdica, a poesia onírica... em suas milhares investigações sobre as coisas, em seus lúcidos e lunáticos estados provocados pelas mais mirabolantes descobertas, o homem de bem morre segundo após segundo sem ter a pompa verbal que lhe veste a morrer consigo.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Embalo de um dia triste (21/06/07)


Um dia de olhos inchados.

Chateada à mania bizarra dos homens, nós, serem e sermos tão estúpidos. O mínimo de sensibilidade nos falta e os poucos que se importam são ainda piores, pois crêem estar fazendo grande coisa. Certas as meninas no balanço que riem à socapa apostando quem atira o sapato mais longe. Entusiasmadas em seu vai-e-vem, elas desfrutam o dia mais longo do ano como se fosse o mais curto. Nem elas, nem eu queremos voltar para casa antes da noite cair. Queremos o sabor das estrelas esvaído em silêncio noturno e a tranquilidade preciosa de não mais palpitar questões sem resposta. Quem se importa? É vai-e-vem de balanço que traz de novo a pergunta ao vai-e-vem do peito. Levanto-me e me despeço num asceno à distância. As meninas seguem chacoalhando gargalhadas. Eu tenho os olhos ainda a denunciar minha natural ignorância de importar-me.

O zazen das não-horas


Tirei a pilha do relógio como quem altera a dimensão espacial do quarto.

O corpo pede o mesmo à mente para que ele possa se expandir e descontrair-se.

Seguimos um tanto inertes à compreensão de nossa biologia intuitiva. Dela mal conhecemos a linguagem própria.

Não a descobrimos porque não sentimos e quando sentimos não entendemos.

Na contorção de vieses e reveses, eu me proponho a prática sistematicamente intuitiva da leitura das sensações. Do pé das letras faço mãos de palavras e, logo, tenho um organismo de idéias. Intransferíveis à materialidade das horas, não operaciono meus pensamentos em conceitos ou feitos. Elevo-os antes de trazê-los ao concreto do corpo. Traços intangíveis de uma percepção irremediavelmente parcial.

Tanta arte e ciência, assim, reduzidas a iminência de sentir o que não se pode alcançar.

Substancialmente sem alcance, nos resta é criar.

Before being born to another cycle of discovery and understanding life


Ganesha

for you I pray now,

without the pretension of knowing

what is the best for me

in this new period of my life,

without anxieties about

what is to come

and released from the bounds

of projections or any expectations,

I beg you to carry my life on your back

and open the doors of perception,

knowledge and understanding


All I need to have wide open

to make the universal goodness true

here and now


I trust my body, my mind, my heart

and my soul

to the purifying action of your trunk


Please, with your strength and wisdom

help me to guide my own energy

towards the best of myself

Please, allow me to be in the right place,

at the right moment


Once watched and protected by your blessed presence

I will feel confident and courageous enough

to face and go through any adversities

that may come up against my way


Under the light of your eyes

I want to learn how to distinguish

the best choices for me and for all,

which will lead me to the full empowerment

of my skills and abilities


No reservations neither fear

shall prevent me from striving for perfection,

the one shown by you


Please open this pathway

for me to acquire the tools needed

to enrich my experience of learning

through love

how to become a tuned instrument

in this life


Only you, holy elephant, Ganesha

can orient my steps along

such eternal and yet temporary journey

Be by my side now

because only under your guidance

I will be able to carry out the mission

which brought me to this precise moment

ready to begin.


Perde o sabor de ser um bom aluno quem deixa de ser iniciante sempre


Iniciados na ciência da espiritualidade

aprendemos a amar, desprendidos

das teias dos pensamentos,

podemos nos elevar

e ascencioados às forças cósmicas,

potencializamos a nossa luz


Iluminados, leves, maleáveis,

e conectados às frequências

das mais íntimas intenções,

vibramos o amor

profunda paz nos inunda,

pois através dele

descobrimos

quem verdadeira-mente

somos.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Camus


Of whom and of what indeed can I say: 'I know that!' This heart within me I can feel, and I judge that it exists. This world I can touch, and I likewise judge that it exists. There ends all my knowledge, and the rest is construction. For if I try to seize this self of which I feel sure, if I try to define and to summarize it, it is nothing but water slipping through my fingers. I can sketch one by one all the aspects it is able to assume, all those likewise that have been attributed to it, this upbringing, this origin, this ardour or these silences, this nobility or this vileness. But aspects cannot be added up. This very heart which is mine will for ever remain indefinable to me. Between the certainty I have of my existence and the content I try to give to that assurance, the gap will never be filled. For ever I shall be a stranger to myself. In psychology as in logic, there are truths but no truth. Socrates 'know thyself' has as much value as the 'be virtuous' of our confessionals. They reveal a nostalgia at the same time as an ignorance. They are sterile exercises on great subjects. They are legitimate only precisely in so far as they are approximate.


And here are trees and I know their gnarled surface, water and I feel its taste. These scents of grass and stars at night, certain evenings when the heart relaxes – how shall I negate this world whose power and strength I feel? Yet all the knowledge on earth will give me nothing to assure me that this world is mine. You describe it to me and you teach me to classify it. You enumerate its laws and in my thirst for knowledge I admit that they are true. You take apart its mechanism and my hope increases. At the final stage you teach me that this wondrous and multi-coloured universe can be reduced to the atom and that the atom itself can be reduced to the electron. All this is good and I wait for you to continue. But you tell me of an invisible planetary system in which electrons gravitate around a nucleus. You explain this world to me with an image. I realize than that you have been reduced to poetry: I shall never know. Have I the time to become indignant? You have already changed theories. So that science that was to teach me everything ends up in a hypothesis, that lucidity founders in metaphor, that uncertainty is resolved in a work of art. What need had I of so many efforts? The soft lines of these hills and the hand of evening on this troubled heart teach me much more. I have returned to my beginning. I realise that if through science I can seize phenomena and enumerate them, I cannot for all that apprehend the world. Were I to trace its entire relief with my finger, I should not know any more. And you give me the choice between a description that is sure but that teaches me nothing and hypotheses that claim to teach me but that are not sure. A stranger to myself and to the world, armed solely with a thought that negates itself as soon as it asserts, what is this condition in which I can have peace only by refusing to know and to live, in which the appetite for conquest bumps into walls that defy its assaults? To will is to stir up paradoxes. Everything is ordered in such a way as to bring into being that poisoned peace produced by thoughtlessness, lack of heart or fatal renunciations.


Hence the intelligence, too, tells me in its way that this world is absurd. Its contrary, blind reason , may well claim that all is clear. I was waiting for proof and longing for it to be right. But, despite so many pretentious centuries and over the heads of so many eloquent and persuasive men, I know that is false. On this plane, at least, there is no happiness if I cannot know. That universal reason, practical or ethical, that determinism, those categories that explain everything are enough to make a decent man laugh. They are nothing to do with the mind. They negate its profound truth which is to be enchained. In this unintelligible and limited universe, man's fate henceforth assumes its meaning. A horde of irrationals has sprung up and surrounds him until his ultimate end. In his recovered and now studied lucidity, the feeling of the absurd becomes clear and definite. I said that the world is absurd but I was too hasty. This world in itself is not reasonable, that is all that can be said. But what is absurd is the confrontation of the irrational and the wild longing for clarity whose call echoes in the human heart. The absurd depends as much on man as on the world. For the moment it is all that links them together. It binds them one to the other as I can discern clearly in this measureless universe where my adventure takes place. Let us pause here.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

E coração tem janela, tem porta para se dizer fechado?


Que coração era esse o seu
colorido de tanta canção
Assobiando vôo leve de gaivota
à beira-mar em tom alto de oração

Vem do mar ou vem do peito?
a batida do canto
a toada do rebento

A marítma aventura
Dos olhos de aurora
a transbordar horizontes
num esgotamento oceânico
para além das águas,
para um universo distante

Ao léu, ao bel-prazer das asas
sem ventos ou sentidos que lhe soprem
o velejar das palavras

Vou-me onde a vida se faz paz
e o azul não permite vão
entre as cores do céu e o brilho da terra

Mas o que faz dela casa de veraneio,
calçada de areia
pés de passeio?

Quando extenuada a tênue tensão do peito
ainda me alcançam
os pensamentos em devaneio?

Tanto me desloquei sem respostas
Movida à força das perguntas
Que hoje credito sonhos ao acaso
E os entrego à deriva das apostas

Tão abstrato o mundo por onde me vou
caminho esse sem pavimento
e meu coração sem cabimento

Que coração é esse, meu Deus, então?
Aquietado no aconchego do tempo
E arrebatado em pleno vôo,
sem porto, sem chão?

Paciente ao quebranto da noite
Vigilante no repouso das horas
atento e sem insônia
Passionalmente quieto
sem pranto, sem cerimônia

Anúncio trovão na janela tremule,
Assédio de tempestade
Apelo que acende o amor,
e não chove a consolar anseios

Refúgio de casulo
de cobertas e cobertores,
telas, tintas e cores,
de estórias de mil amores

Na fortaleza de resistir
a fraqueza de fugir

No calejamento da espera
para além da primavera
um céu florido de borboletas
novamente a revoar saudades

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Concrete Jungle

"No chains around my feet but I'm not free
I know I am bound here in captivity
Now, where is this love to be found?"

(B. Marley)

Recriá-lo fera na ferida de mim. De suas garras, vergões, arranha-céus arranhados na alma. Vim parar no oposto ponto de um estranho movimento de libertação da armadilha de lembrá-lo e recriá-lo. Dou um nó e resvalo no reverso masculino arquetipicamente animal e eternamente humano em mim. A neblina do inverno de agora é pura lembrança fria de ter vivido tão perto estando tão longe. Contudo, sob a óptica da sábia engenhosidade de aprender a ser homem, ele, e eu de aprender a ser mulher, somos um só. Então, distância não serve de medida para nossos corações. Sentimento sedento e ainda tão farto. Oras a escassez das savanas, oras a abundância das matas densas. Cada qual em sua natureza, pertencentes à trivialidade da espécie e ao mesmo tempo extintos em nossa forma de amar. Espelho que somos, ainda vivemos na imaginação um do outro. As patas felinas, o andar pacato e certeiro, os olhos selvagens e toda a nossa linguagem de urros e absurdos a desferir a solidão côncava-convexa dos amantes que não somos. Encaixe tão pouco encaixe senão fluidez de almas que não temos. Um sonho sem vida é um amor que não se torna. Torna-se o quê, se nem ser ele é? Se o fosse, o complemento seria fácil. E eu não precisaria inventar predicados prestando contas à convenção das palavras. Sentido nenhum quando falar de amor é trabalhar hipóteses. Um amor que se tornaria o quê, se existisse? O quê nos tornaríamos se o sentíssemos e nos amássemos? Refugiada na caverna do concreto, procuro esquecer o complemento do verbo e buscar o complemento de mim. Tentei substituí-lo por outro, mas não fui longe e caí na mesma encruzilhada. O que fazer com tanta investigação se o sujeito eu não posso trocar? A farejar uma resposta, sigo o rastro da passada dele onde meu passado se perdeu e eu não posso seguir sendo. Tornam-se, volto. É isso. Creio sem razão humana que o fato de tornarem-se me basta. Ele que só pode existir através de minha condução. Logo, morreremos juntos no decair de minha confiança e certeza. Sem lamúrias, lamentos ou tristeza, mas para a paz definitiva dos verbos sem complemento, dos sentimentos sedentos, das rotas tantas a cada giro dessa roda. Ao menos não me enganam mais as pegadas de tantas estradas trilhadas. E de olhos fechados também "escuto o que toco no silêncio de tudo."